O Fenômeno na Noite de Inverno: O que eu vi naquela sala?

Isso aconteceu há cerca de 14 ou 15 anos. Na época, eu trabalhava na área de segurança pública do minicípio. Nosso regime era de 24 horas direto e, por volta da meia-noite, a equipe fazia uma pausa para o jantar. Eu aproveitava esse momento para dar um pulo em casa e ver como estava minha esposa, que ficava sozinha. Naqueles anos, o nosso bairro era bem mais isolado e silencioso do que é hoje; a maioria das casas ao redor pertencia a veranistas e, como estávamos no auge de um inverno rigoroso e chuvoso, o lugar parecia um deserto.

Eu vinha dirigindo pela Avenida Paraguassú por volta da meia-noite quando algo forte puxou a minha atenção para a direita. Olhei em direção ao mar e vi as ondas quebrando muito altas. Aquele visual e o estrondo repetitivo da água me deixaram estranhamente zonzo, tonto. Na hora, tentei racionalizar: achei que era apenas o cansaço acumulado de um dia inteiro de trabalho. A chuva começava a cair, o frio era intenso, e decidi ignorar aquela sensação estranha para seguir caminho até minha casa.

Estacionei, desci do carro e abri o portão. Nosso pátio é grande, com calçada e algumas árvores. A chuva apertou de repente, vindo com um vento forte que jogava a água de lado, molhando as pernas da minha farda. Apertei o passo para chegar logo à área coberta. Fui até a porta da frente — que é uma porta grande de madeira, de duas folhas, com outra porta por dentro de vidro — bati firme e chamei pela minha esposa.

Foi exatamente nesse instante que tudo mudou. Fui tomado por uma tontura avassaladora, uma sensação bizarra de ter sido arrancado dali e empurrado para um “outro lugar”. Mais uma vez, tentei lutar contra aquilo mentalmente, culpando o sono, mas o que vi  através da porta como se tivesse visão de raio X me paralisou.

A casa estava no breu mais absoluto, mas, bem no centro da sala, havia uma luz cuja origem eu não conseguia identificar — não era uma lâmpada, era uma claridade esbranquiçada, meio enevoada,  que iluminava única e exclusivamente o centro do cômodo. Sob esse feixe de luz, uma mulher totalmente nua, de pele muito branca e cabelos pretos e compridos, dançava. Seus movimentos e seus olhos que olhavam fixos para os meus eram hipnotizantes e estranhos, parecendo imitar o balanço das ondas do mar que eu tinha visto minutos antes, como se ela tentasse prender a minha atenção a qualquer custo.

Em um estado de choque e tentando fazer aquilo ter algum sentido lógico, minha mente me fez acreditar que aquela era a minha esposa. Comecei a gritar por ela, irritado com o absurdo da situação: eu ali fora, me molhando todo no frio, e ela dançando no escuro e no frio feito uma louca, sem abrir a porta. Eu sabia, no fundo, que ela jamais faria algo assim, mas o meu cérebro buscava desesperadamente uma explicação normal.

De repente, a porta se abriu. A ilusão se desfez num piscar de olhos. Minha esposa estava ali, vestindo seu pijama de inverno, olhando para mim sem entender nada. Irritado e confuso, disparei: “Você está louca? Eu aqui me molhando todo e você aí dentro dançando?”

Ela me olhou espantada e respondeu: “Que dançando o quê? Você enlouqueceu?”

Olhando para ela e vendo a sala normal, não tive coragem de dizer que achei ter visto através da porta de madeira, uma mulher nua dançando no meio do escuro. Só consegui engolir em seco e dizer: “É… acho que o cansaço está me deixando meio  louco de verdade.” Ela, percebendo meu estado, sugeriu que eu comesse algo quente. Aceitei, comi em silêncio, profundamente pensativo, e não comentei mais nada para não assustá-la. Dei uma ronda pela casa e pelo terreno para garantir que tudo estava seguro e voltei para o plantão.

Só no dia seguinte, já descansado, consegui relatar para ela o que realmente tinha acontecido. Já se passaram 14 ou 15 anos desde aquela noite de inverno, mas a cena continua nítida na minha memória. Eu sei o que vi. Sei que foi real e que, por alguns instantes, a minha percepção cruzou com outra dimensão ou realidade que até hoje não sei explicar. Ficou a pergunta: o que era aquela presença, e por que ela se manifestou imitada pelas ondas do mar?

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