O Bebê da Quaresma: Um Causo de Tropeiro

Histórias de família guardam mistérios que o tempo não apaga. O causo que vou contar hoje aconteceu com o meu bisavô por parte de mãe, o Ataliba, mais conhecido na região pelo apelido de Taboca. Ele foi tropeiro à moda antiga: transportava gado a cavalo por longas distâncias, cruzando estradas desertas em viagens que duravam semanas ou meses.

Mas esta história não é sobre a lida do campo. É sobre o dia em que o sobrenatural cruzou o caminho de um homem que achava que não temia nada.

A Viagem e o Aviso

Era época de Quaresma — o período do ano em que os antigos sabiam que o mundo espiritual ficava mais denso e as coisas do “outro lado” ficavam soltas. Já passava da meia-noite quando o Bisavô Taboca e alguns amigos jogavam cartas e bebiam em um bar de beira de estrada.

Quando um dos companheiros se levantou para ir embora, o grupo tentou insistir para que ele ficasse e dormisse por ali. Afinal, a estrada de chão que o esperava era deserta, escura e cercada de mato. O homem, porém, deu de ombros e bateu no peito, confiante. Disse que não tinha medo: seu cavalo era ligeiro e, embaixo do pala, ele carregava um revólver calibre .38, uma faca afiada e um facão. Estava armado contra qualquer perigo humano.

Montou no animal e partiu sob a luz de uma lua cheia que clareava a madrugada fria.

O Achado na Beira da Estrada

O silêncio da noite só era quebrado pelo tropel do cavalo. De repente, em um trecho isolado da estrada, ladeado por barrancos e vegetação fechada, o homem ouviu um som que gelou sua espinha: o choro de um bebê recém-nascido.

Ele parou o cavalo, intrigado. Olhou para o lado e viu um pequeno volume na beira da estrada, parecido com um pacote. Ao descer e se aproximar, constatou o inacreditável: era mesmo um bebê, enrolado em um cobertorzinho fino.

Incapaz de deixar uma criatura indefesa morrer de frio no meio do nada, ele decidiu levá-la. Pegou o bebê no colo, acomodou-o com cuidado no alforje na parte de trás da sela e cobriu a criatura com a ponta do seu pala para protegê-la do vento minuano. Montou novamente e seguiu viagem em passo lento, atento ao caminho.

“Tio, eu já tenho dentes…”

Alguns quilômetros adiante, o homem sentiu um cutucão firme nas costas, por baixo do pala.

Instintivamente, ele se virou para olhar para trás. O choque foi imediato. O bebê estava de pé sobre o lombo do cavalo, encarando-o fixamente. Mas não era mais uma criança. Aquela criatura olhava para ele com olhos vermelhos como brasas e, com um sorriso macabro no rosto, disse em um tom de deboche:

“Tio, tio… eu já tenho dentes, tio!”

Ao dizer isso, a coisa arreganhou a boca, mostrando uma fileira de dentes afiados e pontiagudos como os de um cachorro feroz.

O pavor foi tão violento que o homem nem pensou nas armas que carregava. Tomado pelo puro instinto de sobrevivência, ele desferiu uma relhada firme e desesperada contra a criatura. No mesmo instante, o ser caiu no chão com um estouro seco e um forte cheiro de enxofre, desaparecendo na escuridão.

 

O Resgate da Sanidade

O cavalo e o cavaleiro, apavorados, saíram em uma arrancada brutal até chegarem em casa. No dia seguinte, a notícia correu. O homem havia chegado em um estado deplorável: totalmente transtornado, fora de si e com as faculdades mentais despedaçadas pelo choque.

É aí que entra o meu Bisavô Taboca. Além de tropeiro, ele era conhecido na região como um respeitado curandeiro e rezador. Foi ele quem assumiu o caso. Através de orações fortes, chás específicos — as famosas chapoeiradas — e de outros segredos da medicina espiritual que ele nunca revelava a ninguém, meu bisavô conseguiu quebrar o feitiço do terror e trazer a mente daquele homem de volta à realidade. Só depois de curado é que o amigo conseguiu relatar o horror que viveu.

Essa história cruzou gerações na minha família e, até hoje, quem ouve não consegue evitar o arrepio. Afinal, na Quaresma, nem a pólvora e nem o aço protegem o homem daquilo que espreita na escuridão.

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